Não sei onde estás dita vida
mas sei que te tenho presa em mim
porque tenho passado o tempo
a sonhar-te
a reinventar-te,
estás algures acorrentada
a corrente que nos prende
não tem princípio nem fim
e vacilante recomeço
na madrugada de quem trabalha para este mundo
arriscando-me a morrer de fome
por não existirem dicionários
nas vagas luas que navego
como um velho lobo do mar
que desce sempre á melancolia quotidiana
Ana Negrão Ferreira
Divagações Nocturnas
"É preciso provocar sistematicamente confusão. Isso promove a criatividade. Tudo aquilo que é contraditório gera vida."
Salvador Dali
“Lute com determinação, abrace a vida com paixão, perca com classe e vença com ousadia, porque o mundo pertence a quem se atreve e a vida é muito bela para ser insignificante.”
―Charles Chaplin
Caminho meia tonta
e o deserto já parece portas de infinito
o calor que me rói e a sede que me mina
já parecem portas de uma alucinação
são portas adentro portas
como tempo adentro tempo
contratempo adentro do medo
e corridas quedas
a confundir-me com esta areia quente
que parecem janelas de mar em agosto
mais à frente
autocarros ao engano pessoas e cafés
a miragem do dinheiro
mas logo areia outra vez
mais seca e movediça
quem dera que eu fosse apenas mais um réptil
que vive a sangue frio
o calor da areia deserta...
Ana Negrão Ferreira.
Divagações Nocturnas
TRIUNFO
Técnica mista sobre papel 400g 48X50
Em exposição desde 28 de Setembro até 26 de Outubro
a decorrer em Guimarães,
parceria Galeria Vieira Portuense.
Assombro
palmilho léguas
o inferno derradeiro
invado as sensações
consumidas neste outono de prazer
o túnel interdito
abandonado à fúria possuída
desde a véspera do cio
que se prepara para romper
na madrugada fúnebre
onde os fantasmas despertam
num doce pecado
e a ti
te mascaram o desejo...
Ana Negrão Ferreira.
Divagações Nocturnas
Vejo a criança velha a olhar-se ao espelho
recorda a lua guardada nos caminhos
quase todos surreais
quase todos inesperados
vejo barrigas cheias de fome
à espera das mães desesperadas
que vivem a sangue frio
o calor dos répteis
cactos
miragens por trás do sol posto
e os gritos asfixiados
sempre preparados
para morrerem
amanhã...
Ana Negrão Ferreira
Divagações Nocturnas